Pense em alguém que você conheça e admire. E quando digo "conhecer", me refiro a aquele nível de intimidade que te permita reconhecer o que a pessoa está sentindo só de olhar pra ela, só de identificar o tom de voz. Aquele nível de intimidade que já te permitiu se relacionar através de convivência de dias ou anos, experimentando uma gama de sensações.
E quando falo "admirar", me refiro a aquele estado de identificação com o que o outro é e como ele age em determinada situação. Com aquele estado de encantamento pelo modo como uma vida encontrou a sua.
Por exemplo, admiro muito uma moça chamada Ana Maria Saad pela sua história, como ela fez de cinzas uma vida tão linda e inspiradora. Mas não a conheço de fato. Nunca nem a vi. No entanto, consigo ser fã do trabalho dela!
Eu conheço muito bem meu pai, sei quando ele está cansado só de ouvir seus passinhos quando ele está chegando. Mas, talvez não admire algumas coisas que ele costuma fazer por não me identificar muito com tais escolhas. Mas o amo incondicionalmente e, de certa forma, o admire muito também em vários aspectos. Sua dedicação aos estudos, seu comprometimento com a verdade, por exemplo. Sim, sou fã dele!
Mas, pensando aqui com meus botões, não existe no mundo ninguém que eu admire tanto, conhecendo ou não pessoalmente, que me faça reagir de modo histérico só de vê-lo em cima de um palco, fazendo algo bonito, agradável, inteligente ou interessante. Por mais que eu admire a arte de alguém ou o modo que essa pessoa se expressa no mundo, por mais que eu sinta um amor incondicional por alguém que eu conheça, este ser não conseguiria despertar em mim a irracionalidade.
Então, fico pensando em quem não é o "eu". Pelo que há descontrole emocional nos outros? É por uma pessoa ou por uma ideia do que seja essa pessoa? Ou pelo que ela significa pra quem se descontrola?
O ídolo, o mito, talvez representem o que a pessoa acredita ser o mais importante em sua vida. Talvez ele represente beleza, uma beleza tão angustiante e inalcançável que me desespera. Me desespera não ver isso quando me olho no espelho, não ver isso nas pessoas que me rodeiam. O ídolo pode representar uma força que não tenho. A força de encantar mulheres ou homens, a força de ter dinheiro, a força de arrancar admiração e desejo de outros. A força de ser amado, como eu penso que não sou.
O fanático parece não reconhecer em si nenhum desses aspectos de força. Talvez se ache um bosta, um merda. Mas existe alguém que é diferente. Esse alguém é o que eu queria ser, tem o que eu queria ter. Por isso o amo e me desespero com o significado que essa imagem tem.
Será que é isso?
E se você estiver no seu palco? Tente se imaginar lá em cima em destaque. E se você for essa pessoa que você admira e ama tanto?
Quem sabe o desespero dê lugar à paz, à gratidão e à beleza do espelho. Quem sabe também você ganhe a capacidade de se encantar pelas pessoas que te rodeiam. Seus pais, seus filhos, seu amado ou amada, o moço que te atente com simpatia na padaria, um idoso que te deu bom dia na rua, mesmo que isso seja tão raro e esquisito hoje em dia.
Este sim, encantamento profundo, cheio de paz e vida!